O julgamento é uma forma de dizermos que estamos certos e que os outros estão errados. Aprendemos esse comportamento desde a tenra infância. Na família julgam-se os filhos: fulano é bonzinho, sicrano é desobediente; fulano é quieto e sicrano é agitado; e por aí vai. No trabalho, todos se julgam a todo instante, seja positiva ou negativamente: o gestor julga o colaborador e vice-versa; os colegas julgam-se entre si.

O julgamento está no DNA de todos nós, e sair desse círculo vicioso é um grande desafio.

O julgamento é uma faculdade da mente que distingue o bem do mal. Em outras palavras, o julgamento é uma opinião ou um veredicto. Agora, como posso dizer que o outro é bom ou ruim sem abrir precedentes para que o outro também me julgue e sem saber o motivo que o levou a falar ou a fazer algo?

Como me relacionar com o outro sem julgar?

Aprendemos, desde cedo, que o julgamento é o que nos colocará no lugar de bons ou de maus, e estamos sempre com medo disso. Acabamos comprando o julgamento como definição da realidade.

E o que é realidade?

É a forma como aprendemos a funcionar na sociedade. Precisamos seguir regras, padrões, crenças, enquadrar-nos dentro de uma moldura, porque, caso contrário, seremos rejeitados, “julgados”, e são pouquíssimas as pessoas que se arriscam.

A realidade é aquilo que pensamos acreditar, mas sem realmente refletirmos sobre elas; acreditamos, simplesmente, porque a maioria das pessoas diz que é assim, sejam pais, amigos, colegas, chefes, namorados… não questionamos e, muitas vezes, assumimos como verdade.

A realidade é criada sempre que duas ou mais pessoas se encontram, alinham-se em pensamentos, crenças, emoções e sentimentos, estando de acordo com o mesmo ponto de vista, mesmo sem fazer isso de forma cognitiva. E quem não estiver de acordo está fora.

Poderíamos ser livres, ao invés de ter que sempre nos encaixar em um padrão, sem nos preocupar com que os outros vão dizer. E se pudéssemos perceber que cada ser humano pode ser, perceber, interpretar, sentir ou receber, diferentemente, cada fala ou situação, sem que isso signifique que ele seja ruim ou bom, que esteja certo ou errado? Cada pessoa pode apenas ter um ponto de vista diferente do meu, e não preciso que ela compre nada meu e vice-versa.

Como seriam as relações de um modo geral se cada um de nós pudesse olhar o ato ou ação do outro sem julgar?

Eu não preciso concordar, mas também não preciso discordar. Não sabemos das histórias, da vida, da experiência, das mazelas, das alegrias ou tristezas que estão no interior de cada um.

Acreditamos que somos bonzinhos e os outros são maus, que nosso juízo de valor é melhor que o do outro, e tentamos convencê-los a qualquer custo a pensar como nós. Com isso nós CONDENAMOS, AVALIAMOS, CRITICAMOS, OPINAMOS, etc.

Um exemplo bem simples é condenarmos os políticos por suas atuações, sem olhar o que fazemos ao longo do dia, como: parar na vaga de deficiente físico; ultrapassar pela pista do ônibus, porque ficamos irritados por um carro dar seta e entrar na nossa frente; sair correndo da fila do supermercado em que estamos quando outro caixa abre, sem permitir que quem está na nossa frente passe primeiro; aceitar um suborno por um acidente de trânsito, etc. Isso pode ser bobagem, mas, quando fazemos isso, estamos sendo iguais aos políticos. Aí alguns dirão: “mas isso não se compara”. Hello!!!! Acordem! Desse jeito também estarão julgando, dizendo que o que fazem não é ruim. Olhar para nossa sombra requer coragem e quando pudermos nos olhar lá no fundo de nossa alma veremos que somos iguais a qualquer outra pessoa.

Uma das coisas que podemos exercitar para diminuir nossos julgamentos é ter consciência de nós mesmos, diminuir nossa defensividade diante das situações e das pessoas e falar com clareza o que desejamos e como nos percebemos e sentimos. Ou seja, expressar nossa vulnerabilidade. Já escrevi em outra ocasião que, ao contrário do que as pessoas pensam, vulnerabilidade não é ser fraco, mas, sim, ter a coragem de expressar o que sente e, com isso, poder se expor. Mas só podemos nos expressar dessa forma quando nos conhecemos com profundidade.

Do livro do Dr. Marshall Rosenberg, transcrevo um trecho na íntegra:

Quando aprendi como posso receber (escutar) e dar (expressar) por meio da CNV, superei a fase em que me sentia agredida e feita de capacho e comecei a realmente escutar as palavras e a captar nelas os sentimentos subjacentes… aprendi a escutar sentimentos, a expressar minhas necessidades, a aceitar respostas que nem sempre queria ouvir. Ele não está aqui para me agradar, nem eu estou aqui para dar felicidade a ele. Ambos aprendemos a crescer, a aceitar e a amar de modo que ambos possamos nos realizar. (2006, p. 28)

A Comunicação Não Violenta (CNV) convida-nos a olhar para o fundo do nosso interior, a refletir sobre nossas ações e a ver que somos iguais e que os outros não são nem piores nem melhores do que nós – mas têm pontos de vista diferentes dos nossos e poderemos, se quisermos, buscar um equilíbrio em nossas relações. Com isso, diminuiremos os conflitos, as guerras, as separações, porque nós fazemos as escolhas e ninguém é responsável por elas, a não ser nós mesmos.

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